Os efeitos emocionais e anímicos nocivos decorrentes da derrota mais humilhante que pode haver, a sofrida contra o pior dos inimigos, ou melhor, o único inimigo, estenderam-se por vários dias, pois, graças a este calendário incompetente e desajustado que fizeram para as competições do futebol português e que está agora em vigor, não houve um jogo que pudéssemos jogar com qualidade para afastar da cabeça e do espírito a vergonha de perder com o benfica. Até voltarmos a encontrar o inimigo, em Maio ou, quem sabe, nas meias-finais ou na final da Taça da Liga (na Taça de Portugal já não dá porque eles já foram eliminados), não descansarei. E também não descansarei se nesse(s) jogo(s) o FCPorto não vingar o resultado que sofreu no dia 20 de Dezembro de 2009.
O FCPorto deste ano, como já eu e tantos outros portistas o dissemos, não é daqueles que nos faz ter quase a certeza de que vamos ganhar coisas em Portugal e ir longe na Europa, lado a lado com as melhores equipas do mundo. Não é, não é.
Rúben Micael:
Saúdo e rejubilo com a contratação de Rúben Micael, um dos nomes mais evidentes no mercado no que toca ao reforço da posição que o FCPorto mostrou como mais deficitária nesta temporada: aquela que fica ao lado de Raul Meireles e uns metros à frente do trinco, Fernando. Aquela que foi durante quatro vitoriosos anos ocupada por um senhor que devia ter como alcunha "Classe". Perdemo-lo e já estam
os habituados a perder os melhores jogadores que temos, ano após ano. Tornou-se um hábito e não temos nada que criticar, enquanto portistas, pois são em boa parte as vendas, por valores significativos, desses activos que nos permitem manter saúde nas contas financeiras do clube. Aquilo a que também estávamos habituados era a que chegasse prontamente um substituto de valia potencialmente idêntica. E neste caso, não chegou. Belluschi tem muita técnica, é virtuoso, mas apaga-se. E mesmo que não se apagasse, não seria nunca o patrão do meio-campo de que o FCPorto precisa. A tal mais-valia, o tal patrão que referi há uns tempos num comentário aqui mesmo colocado. Nessa altura, pensei nalgumas hipóteses, eu e outros portistas. Algumas delas tinham umas vantagens e desvantagens, outras outras. Uma delas é Rúben Micael, jogador de grande toque de bola, visão de jogo, jovem, português e marcador de golos com a facilidade que os grandes homens de meio-campo demonstram. É dos que não engana. Falou-se na sua possível ida para o Sporting. Estaria o FCPorto a perder um grande jogador nacional? Não, não estava. Contrariamente ao que se foi dizendo em público, o FCPorto ia mesmo reforçar-se e a vinda deste jogador já estava nos planos do clube há algum tempo. Consumou-se, sem alarido, sem fugas de informação, como de costume. E cá está ele, em Janeiro, pronto a juntar-se a um plantel sobre o qual pairam dúvidas e a um clube que não está contente com a posição que ocupa no campeonato. Estou certo de que ajudará a mudá-la. Não engana. É craque. Bem-vindo seja, que se imponha imediatamente e que dê ao FCPorto a clareza, consistência e qualidade de jogo que não existiu em grande parte dos jogos da equipa neste ano.FCPorto e os jogos no Dragão:
Fica a sensação, para quem vê os jogos realizados no Estádio do Dragão deste ano integralmente, que a equipa já não sabe vencer em casa. Nos jogos fora, a coisa rola bem e a equipa im
põe-se. Em casa, onde tem de assumir as despesas do jogo e ser criativo e incisivo para quebrar defesas apertadíssimas e equipas manhosas, é um sofrimento. Nos jogos em que produz futebol ofensivo de qualidade, a sorte não ajuda, ou o guarda-redes faz defesas impossíveis, ou então são-nos anulados golos perfeitamente e visivelmente válidos de forma muito estranha. Mas não vamos já à arbitragem. No Porto actual sobressaem os seguintes nomes: Bruno Alves, Falcao, Varela (talvez lhes possamos juntar Meireles, que não
está no seu melhor). Bruno Alves pela qualidade que imprime ao jogo aéreo da equipa, tanto ofensiva como defensivamente, pelo seu carisma, pelo facto de bater livres quase sempre de forma perigosa para o adversário, por ser um jogador feito. Falcao pela qualidade do remate, pelo jogo de cabeça eficaz. Varela pela alegria que dá ao jogo da equipa quando esta mostra uma quase total falta de imaginação para construir jogo ofensivo (a que se deve a inexistência de um jogador com inteligência, imaginação e visão de jogo, como era, mais uma vez, Lucho, independentemente de ser rápido ou não). Varela também porque chegou ao Porto com uma vontade de mostrar que podia vir a ser um grande jogador; como começou bem, ganhou confiança e está a trabalhar dentro e fora do campo a todo o gás. Ainda bem que assim é, pois tiveram origem nele muitas das coisas positivas que o FCPorto foi fazendo este ano. Para já, dá goleada a Hulk, que tem desiludido.Extra-campo de jogo:
Ora aqui está, Hulk. Bem, mas agora ele também não pode iludir nem desiludir, porque está, juntamente com Sapunaru, suspenso preventivamente devido a estranhos desacatos ocorridos num local onde o benfica tem demonstrado ser tão competente como nos relvados: nos túneis. Como a "justiça desportiva" não tem pressa em julgar este caso, porque o FCPorto pode esperar, lá vamos jogando sem Hulk (se bem que, da maneira que estava a jogar e com o pouquíssimo que estava a produzir, isso talvez até não seja assim tão negativo). Mas há mais, porque, segundo "a bola", a estes dois criminosos devemos juntar mais três. O jornal até aludiu a isso com uma capa gigante, fazendo uma montagem com Fucile, Helton e Rodríguez com cara de poucos amigos dentro de um túnel, como se fossem de um gangue, para os bêbados que lêm o pasquim pensarem que o Porto é uma associação criminosa. Aliás, foi por isso que o clube deixou de dar conferências de imprensa ou entrevistas aos meios de comunicação social sempre que entre eles se encontrasse um elemento dessa corja de frustrados iludidos. Servirá de algo? Não. O resultado disso será que "a bola" terá agora uma espécie de razão plausível (na sua mente distorcida, ávida de injustiças) para ter alguma animosidade para com o clube em todo o material que publica sobre ele. Se já não eram imparciais antes, imagine-se agora que o clube que gostam de atacar mostrou este desprezo para com eles.
O colinho glorioso:
Sem que ninguém fale muito nisso, criou-se, como era de prever, uma obrigação de levar o benfica ao colo até ao fim da temporada. Na Taça da Liga, contra o Nacional, o benfica foi altamente beneficiado. Parece haver uma relação muito próxima entre o benfica e essa competição. Mas no campeonato, como se explica que o benfica chegue aos 0-5 nos Barreiros, quando quem viu o jogo como eu vi assistia a uma total incapacidade encarnada para desequilibrar o prato da balança a seu favor? Explica-se assim:
Num espaço relativamente curto de tempo, o benfica não só viu um penálti contra si não assinalado, como viu dois jogadores expulsos do Marítimo (um deles por palavras... se fosse o Luisão ou o David Luiz seria expulso? E o que terá dito o jogador do Marítimo?), como teve um penálti a seu favor (numa situação em que Di María é chamado para entrar dentro de campo pela equipa de arbitragem - após paragem para assistência - e recolhe de imediato a bola, isolado, e dá origem a nada mais nada menos do que: 1- penálti; 2- expulsão de um jogador do Marítimo; 3- golo do benfica). E depois ainda têm a sorte de a bola embater num dos postes da sua baliza no primeiro minuto de jogo e de marcar o 0-4 num auto-golo. Assim, de facto, é fácil dar goleadas. Por isso desiludam-se, lampiões, porque a vossa máquina ofensiva não é máquina alguma. É, muito objectivamente falando, um ataque com excelentes jogadores e homens criativos e de qualidade. Deram goleadas em casa sem haver expulsões na equipa adversária? Deram sim senhor, mas quando o Porto ou o Sporting estão bem e se apanham a vencer por 2-0 ou 3-0 em casa também podem continuar a dar no acelerador e atingir uma goleada sem grandes dificuldades. No futebol de hoje é preciso saber gerir, e a forma como o benfica continuou a massacrar nalguns jogos da primeira volta até ao final do jogo deu frutos negativos em Dezembro, com sucessivas lesões de jogadores (um dos primeiros comentários públicos de Domingos Paciência ao chegar a Braga foi sobre a condição física deplorável dos jogadores, sujeitos a esforços desajustados por Jorge Jesus...). E o Cardozo tem 15 golos, pois é, congratulem-se com isso. O Falcao tem 11. O que não tem importância para vocês é que o Cardozo marcou 6 golos de penálti (quantos terão sido inventados?), em 8 marcados a favor do benfica, e o Falcao tem apenas 1 de penálti (de um total de 3 marcados a favor do FCPorto) e pelo menos dois mal anulados. Façam as contas.
Isto para não falar que o golo que obtiveram para derrotar um Porto amorfo foi obtido de forma irregular. Fosse ao contrário, e lá vinham os choramingas deitar a toalha ao chão lavados em lágrimas, afirmando que o título já estava entregue. Estes cegos, ou idiotas, nunca foram bons a olhar para si próprios.
Sobre o FCPorto... Bom, contra o Leiria já nos haviam roubado um golo legal que talvez tivesse evitado o sofrimento a que estivemos expostos no final do jogo (jogo esse, no Dragão, em que foram evidentes as dificuldades desta equipa para transportar a sua superioridade teórica em relação a adversários menores para o campo da prática, muito por culpa própria, e nesse caso não só da (falta de) qualidade ou soluções do plantel). Mas contra o Paços de Ferreira... Bom, aqui podemos de facto falar de influência directa no resultado, pois o golo de Falcao na primeira parte, para além de ter sido válido (e um belo lance, do início ao fim, diga-se), significaria um 1-0 no primeiro tempo, no Estádio do Dragão, o que tinha boas hipóteses de facilitar a segunda parte do confronto. Na segunda parte, um fora de jogo assinalado a Varela, viu-se depois nas imagens, em jogada perigosa, e com 0-0, foi visto por um fiscal-de-linha quando o jogador do FCPorto tinha não um, não dois, mas três adversários a colocá-lo em jogo, um deles a uma distância considerável. Até Rui Oliveira e Costa acha esquisito o que tem acontecido com isto de foras-de-jogo e FCPorto. Isto é estranho. "Estranho". Foi mesmo esse o adjectivo utilizado por van der Gaag, treiandor do Marítimo, para qualificar algumas decisões da equipa de arbitragem liderada por João Ferreira - conhecido já anteriormente por beneficiar o seu clube do coração em vários jogos, em anos anteriores, sobretudo em jogos na luz - nos Barreiros.
Sp. Braga e Sporting:
O Braga mantém-se firme no topo, e precavendo já uma potencial perda de intensidade na segunda metade da época, foi buscar dois jogadores que estão e estarão a todo o gás: Rentería e Luis Aguiar. Ambos provenientes, em certa medida, do Porto, ambos de qualidade e ambos com um passado de sucesso no clube onde treina Domingos Paciência, em 2008/09. Todos os adversários da onda que pretende fazer do benfica o campeão nacional (a mesma onda de 2004/05) são bem-vindos. E nesse lote pode muito bem ter entrado o Sporting, porque, olhando para os núm
eros, após esta fase de vitórias sucessivas dos leões, o Sporting está tão longe do Porto como o Porto do Braga, a 12 pontos do primeiro lugar. Vencendo o confronto com os bracarenses no Estádio Axa, na próxima jornada, pode voltar a ter uma palavra a dizer na questão do título. Empatando ou perdendo, será muito difícil.Mas fica um avant-gout do Sporting que aí vem. Se segurar os melhores jogadores que tem, resistindo às investidas europeias por Veloso, Izmailov ou Moutinho, o Sporting voltará a ser um candidato de peso muito rapidamente, e poderá já este ano levantar taças. Saúda-se o regresso leonino aos tempos de vitória e vivacidade. Uma palavra para Liedson, o melhor avançado a jogar em Portugal desde Jardel:
Parou quando sentiu que tinha que parar. Voltou quando estava em forma. Chegou, jogou, e marcou 2 golos. Impressionante. Com Liedson em forma, repito, em forma, por muito mal que o Sporting esteja, nunca estará acabado.
